domingo, 17 de janeiro de 2016

South Coast Track (04/01/2016 a 11/01/2016)

Depois de 04 anos estava me preparando para uma nova viagem à Austrália para visitar minha irmã Ana Lúcia que mora em Sidney. Em algum momento em 2016 eu a informei que dessa vez pretendia vistar a Tasmânia. Então...alguns dias depois vieram duas propostas. Fazer um trekking de dois dias no Walls of Jerusalem ou fazer um trekking mais longo na South Coast Track, a trilha mais remota da Austrália. Eu, gulosa, escolhi a segunda opção.

E assim foi. No dia 28/12/2015 eu cheguei em Sidney e particularmente, tive pouco tempo para me inteirar dos detalhes da atividade que já havia sendo meticulosamente preparada pela Ana e pelo seu esposo Matt Crapp. Enquanto estávamos em Sidney,  realizamos alguns treinamentos na reserva próxima a casa da minha irmã e meu cunhado em Northmead. Um dia também iniciei umas braçadas na piscina do Clube de Parramatta. Ana comprou uma bota adaptada aos seus pés e nós duas adqüirimos mochilas em conformidade com nossos biotipos. Matt elaborou um plano exemplar de alimentação para os dias da caminhada de acordo com nossos hábitos alimentares.

PREPARATIVOS PARA A TRILHA

No dia 03/01/2016 voamos para Hobart, capital da Tasmânia e no dia 04/01 pegamos um monomotor para Meleleuca onde iríamos iniciar a trilha...Meu Deus....a aventura ia começar.....A partir das 11 horas da amanhã fizemos nossa caminhada do primeiro dia de Meleleuca a Point Eric (13,4 km).

VÔO DE HOBART PARA MELELEUCA
 Foi uma caminhada tranquila com 80 m de subida e 80 de descida acumulados. Acampamos em Point Eric perto do fim da tarde. Depois, observamos que o local estava recebendo os ventos frios da Antártida que chegam ao sul da Tasmânia. Isto é interessante pois a partir das 18:00 h quando os ventos param de chegar a temperatura local volta a aumentar.


CAMINHO DE MELELEUCA A POINT ERIC

ACAMPAMENTO EM POINT ERIC

No segundo dia acordamos cedo e às 07:30 horas começamos a caminhar. O próximo trecho seria de Point Eric até Louisa River. Nessa caminhada atravessamos alguns riachos. O percurso era um pouco maior (17 km) e um pouco antes do horário do almoço tivemos que subir e descer uma elevação de 255 m (Red Point Hills). Chegamos no fim da tarde no acampamento de Louisa River onde pessoas mais corajosas se arriscavam a tormar banho nas águas geladas do rio. Tendo consciência de que no dia seguinte iríamos subir Ironbound Range fomos dormir bem cedo (antes das 19:30h).

POINT ERIC A LOUISA RIVER


O terceiro dia apresentava um grande desafio. Teríamos que subir Ironbound Range (905m em 5,6 km). Ana e Matt seguiram na frente. Eu fui devagar. A subida dessa elevação é uma experiência que transcende a simples atividade de caminhada. É um exercício de reflexão e disciplina. Devem-se estabelecer pequenas metas para se chegar ao ponto final e ter paciência pois a cada ponto conquistado existe um mais elevado que irá levar ao topo.

No caminho passaram por nós um grupo de 5 jovens da Tasmânia que haviam deixado o acampamento de Louisa River mais tarde. Como eles andavam juntos rapidamente a visão de seu movimento do alto deu-lhes o apelido de "Soldadinhos de Chumbo". Foram nossos vizinhos nômades nos acampamentos até o fim da trilha.

Chegamos ao topo do Ironbound Range umas 15:00h e a sensação de que havíamos cumprido algo desafiante foi carregada de emoção. Logo nos dirigimos ao acampamento de emergência pois decidimos que era melhor descansarmos mais na medida em que a descida também não seria fácil. O acampamento de emergência não contava com o toalete como os demais. Mesmo assim, acampamos e fomos dormir muito cedo.




No quarto dia iniciamos a descida do Ironbound Range (905 m em aproximadamente 5,9 km). O trecho tem dificuldade semelhante ou comparativamente mais difícil que o trecho da subida. Isso ocorre devido ao caminho ser praticamente muito íngreme (quase 60° de inclinação) e coberto de lama. Iniciamos a descida pouco depois das 06:00h com uma temperatura de aproximadamente 06°C e ventos cortantes vindos da Antártica.

DESCIDA DO IRONBOUND RANGE




Na saída fomos agraciados com a visão dos raios de sol trespassando as nuvens em direção e se refletindo no mar. O caminho estava muito escorregadio e cheio de pedras. Chegamos praticamente exaustos no ponto de nosso próximo camping, Little Deadmans Bay. Este lugar maravilhoso, cheio de pedras, com águas cristalinas no oceano e um ponto bem seguro para podermos descansar. Nesse local conhecemos nossos outros vizinhos nômades além dos Soldadinhos de Chumbo: Adam, um montanhista que estava fazendo a trilha com seus dois filhos adolescentes e Kathie uma ecóloga de Alice Springs que estava caminhando sozinha (atitude muuuiiiiito corajosa dela!!!).

ACAMPAMENTO EM LITTLE DEADMANS BAY

O quinto dia foi chamado de "Survivor Day" pelo conjunto de pequenos desafios que deviam ser enfrentados. Saímos umas 07:00h da manhã de Little Deadsman Bay e rumamos para Prior Boat Crossing (9,4 km com 150 m de subida e 150 m de descida acumulados). Parte do caminho é na praia que foi onde deparamos com um golfinho morto. Logo após tivemos que cruzar o New River Lagoon. Matt e Ana foram primeiro. Como as regras do parque informam que um barco deve ser deixado em cada margem da lagoa. O Matt voltou com os dois barcos e eu voltei com ele para a outra margem. Após essa parte, seguimos para um acampamento opcional em Osmeridion Beach (7,9 km). Após o desafio do barco descemos uma duna e continuamos a caminhar entre a duna e a lagoa. Após o almoço subimos outra duna com o auxílio de uma corda. Chegamos já ao final da tarde a Osmeridion Beach.

"SURVIVOR DAY" - LITTLE DEADMANS BAY A OSMERIDION BEACH


No sexto dia deixamos Osmeridion Beach em direção a Granite Beach (8,6 km). O caminho foi tranquilo e passamos por Surprise Bay com seu cenário estonteante. Após o almoço alcançamos Granite Beach. Antes tivemos que passar por um caminho de pedras e escalar um paredão de pedra (cliff) para chegarmos ao acampamento. Em Granite Beach foi traçada a estratégia do próximo dia no qual havia poucos pontos de coleta de água e não sabíamos até quanto tempo teríamos gás para cozinhar. Como eu andava mais devagar, Ana levaria meu saco de dormir.

OSMERIDION BEACH - GRANITE BEACH





O sétimo dia foi caracterizado por mais desafio. Iríamos caminhar de Granite Beach a South Cape Rivulet. O trecho com 9,1 km (715 km de subida e 715 km de descida acumulados) era simplesmente em sua primeira parte praticamente coberto de lama. No caminho atolei duas vezes o que foi uma sensação no mínimo....interessante...... Ana e Matt seguiram em frente. Após tanta lama o trecho passa a ser caracterizado por subidas e descidas em uma floresta cheia de imensas samambaias e eucaliptos. Ao final do caminho tivemos  duas belas vistas do oceano. Às 17:30 cheguei a South Cape Rivulet  que se revela em um maravilhoso cenário do riacho formando uma lagoa e desaguando em uma praia de eucaliptos.

GRANITE BEACH - SOUTH CAPE RIVULET



Nesse local conhecemos Cristhopher um mochileiro alemão (geógrafo que nem eu) que estava fazendo parte da South Coast Track no sentido leste-oeste e ficamos conversando sobre vários assuntos. No jantar recebemos a visita de uma Wallabee e seu filhote. Ela nos olhava atentamente (devia estar esperando que lhe déssemos comida). Entretanto não lhe demos nada porque é contra as regras do Southwest National Park. Felizes porque já estávamos quase no final da trilha fomos dormir.

ACAMPAMENTO SOUTH CAPE RIVULET

No oitavo dia saímos umas 7:30 h para fazer o último trecho da South Cape Rivulet até Cockle Creek. O último dia da trilha foi muito tranquilo (11,4 km com 200 m de subida e 200 m de descida acumulados). Passamos por praias maravilhosas  numa das quais temos a visão de Lion Rock. Por fim subimos outro paredão (cliff) de rocha escura da qual avistamos South Cape Bay. Nesta parte da trilha existem longos caminhos de madeira para evitar a zona de lama. Após esses caminhos atravessamos 04 riachos o que indicavam que já havíamos completado metade do trecho. Ao final, passamos por uma vegetação mais seca e por volta de 12:00 completamos a South Coast Track.

SOUTH CAPE RIVULET - COCKLE CREEK




O que podemos dizer da experiência é que ela foi única em nossas vidas. Observamos que fizemos a trilha de acordo com nossas condições física. Mesmo assim, a atividade teve momentos de preparação, planejamento e treinamento que foram muito importantes. A preocupação com o tipo de equipamento, vestimenta, calçados foi relevante. Matt providenciou um serviço de localização de GPS que permitiu que nossos familiares acessassem nossa rota e toda vez que chegávamos a um acampamento enviava uma mensagem informando onde e como estávamos.

A participação na South Coast Track foi muito significativa para nós. À medida que caminhávamos fazíamos grandes reflexões sobre que rumos iríamos tomar em nossas vidas. Quando chegamos na entrada do Parque Nacional estávamos esfuziantes com a sensação de dever cumprido. Chamamos um táxi que nos levou até Geeverston e de lá pegamos um ônibus de linha até Hobbarth. No mais, o que restou foi um gostinho de quero mais e outras grandes caminhadas virão pela frente.