sábado, 13 de fevereiro de 2016

O que significa ser mequetrefe

Tudo começou em 2011 quando tive a idéia de realizar a volta na Ilha Grande. Foi um fracasso que ficou marcado na minha vida porque influenciou nas expectativas de outras pessoas também. Ficamos frustados.

Fiz uma reflexão e vi que EU não havia me preparado para fazer aquela caminhada. Não havia principalmente me preparado fisicamente.

Algum tempo depois resolvi  criar um grupo no Facebook "Treinamento para Grandes Caminhadas" no qual me propunha a passar a idéia da importância de se planejar e preparar uma grande caminhada. Tivemos umas reuniões e tentativas de nos encontrarmos para caminhar. Mas não deu certo.

PRIMEIRA REUNIÃO DO GRUPO TREINAMENTO PARA GRANDES CAMINHADAS NO PARQUE DA CIDADE


Em 2014 resolvi de uma hora para outra passar minhas férias no Chile e conhecer o Parque Nacional de Torres de Paine. Nesta viagem fiz sozinha a trilha da Base até ao Mirador das Torres. Estava tão despreparada e fora do físico que para mim essa caminhada foi muito sacrificante. Quando cheguei ao fim chorei de emoção e coloquei que assim que retornasse a Brasília voltaria a fazer natação e a fazer musculação.

FINAL DA TRILHA DO MIRADOR DAS TORRES


Meu grande amigo Ricardo Cesar viu a foto e entrou em contato comigo. A muito tempo ele tinha vontade de fazer esta mesma trilha. Um dia combinamos uma caminhada no Parque de Águas Claras e depois fomos ele, eu e o parceiro de trilhas Wendel tomar uma cerveja. Assim estava começando a se materializar o espírito mequetrefe....

RICARDO CESAR WENDEL E EU: ORIGENS DO ESPÍRITO MEQUETREFE




O Ricardo se mobilizou para organizar uma feijoada mensal do Grupo Treinamento Grandes Caminhadas - TGC no Bar Pit Stop em Águas Claras. O estabelecimento estava à nossa altura: simples, despretencioso. Na mesma época eu havia afirmado que o What´s App do TGC era o qual menos havia atividades. Eu disse um dia: esse é o grupo mais mequetrefe que eu faço parte.

A feijoada encheu. Muita gente apareceu.....Neste dia ficou estabelecido que todo terceiro sábado do mês iríamos ter a feijoada e toda quinta-feira seria nosso encontro semanal.

PRIMEIRA FEIJOADA DO GRUPO TREINAMENTO PARA GRANDES CAMINHADAS




As reuniões dos mequetrefes inspiram nossos sonhos de nos superarmos. Às vezes vão duas pessoas. Outra vez foi somente uma. Em um dia de chuva Alexandre Furlani caminhou uns 20 km para estar conosco. Os mequetrefes não querem ser melhores que ninguém e estão somente na alegria. Convidam a todos para compartilharem de absurdos e bobeiras que são ditas na mesa do bar. Eles são vigilantes para que a conversa não fique muito séria. E eles falam de sonhos de viagens, de projetos, de sentimentos...., Mas também choram mágoas, chateações.... Tudo na alegria que uma vida mequetrefe exige

RICARDO CESAR, ALEXANDRE FURLANI E EU NA REUNIÃO SEMANAL DOS MEQUETREFES



Os mequetrefes também promovem "pajelanças" que é o envio de energias positivas para as próximas atividades do TGC. Teve a pajelança de Ricardo Cesar pro Chile e a minha pajelança para a Austrália. Neste dia colocamos o adesivo de nosso grupo para demarcar o território mequetrefe.


RICARDO CESAR, WENDEL FERREIRA, CLEO ANDRADE E EU NA DEMARCAÇÃO DO TERRITÓRIO MEQUETREFE


O mais legal de tudo isso é que as idéias fluem naturalmente como se elas estivessem a muito tempo em nossas cabeças. E assim é...e Vamos que vamos!!

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Porque medir o mundo com os pés....

"Olha, amiga minha, respondeu D. Quixote, nem todos os cavaleiros podem ser cortesãos, nem todos os cortesãos podem nem devem ser cavaleiros: de tudo tem de haver no mundo; cavaleiros todos somos, mas vai muita diferença de uns a outros; porque os cortesãos, sem saírem dos seus aposentos, nem dos umbrais da corte, passeiam por todo o mundo, olhando para um mapa, sem lhes custar mealha nem padecer calor, nem frio, nem fome, nem sede; mas nós outros, os verdadeiros cavaleíros andantes, ao sol, ao frio, ao ar, às inclemências do céu, de noite e de dia, a pé e a cavalo, medimos toda a terra com os nossos próprios pés. "
 Miguel Cervantes - "Dom Quixote de La Mancha. 

 Confesso que para minha tristeza, Dom Quixote é um personagem da literatura. Mas como tal, é inspirador. Sua base é a paixão que nos leva entre erros e acertos alcançarmos nossos sonhos...
QUALQUER UM PODE REALIZAR A VIAGEM E A TRILHA DE SEUS SONHOS. Para isso deve se preparar e se planejar. Nesse caso, a proposta é descrever não somente o resultado da viagem e da trilha mas o processo de sua motivação, preparação e elaboração.
Paz e bem.

domingo, 17 de janeiro de 2016

South Coast Track (04/01/2016 a 11/01/2016)

Depois de 04 anos estava me preparando para uma nova viagem à Austrália para visitar minha irmã Ana Lúcia que mora em Sidney. Em algum momento em 2016 eu a informei que dessa vez pretendia vistar a Tasmânia. Então...alguns dias depois vieram duas propostas. Fazer um trekking de dois dias no Walls of Jerusalem ou fazer um trekking mais longo na South Coast Track, a trilha mais remota da Austrália. Eu, gulosa, escolhi a segunda opção.

E assim foi. No dia 28/12/2015 eu cheguei em Sidney e particularmente, tive pouco tempo para me inteirar dos detalhes da atividade que já havia sendo meticulosamente preparada pela Ana e pelo seu esposo Matt Crapp. Enquanto estávamos em Sidney,  realizamos alguns treinamentos na reserva próxima a casa da minha irmã e meu cunhado em Northmead. Um dia também iniciei umas braçadas na piscina do Clube de Parramatta. Ana comprou uma bota adaptada aos seus pés e nós duas adqüirimos mochilas em conformidade com nossos biotipos. Matt elaborou um plano exemplar de alimentação para os dias da caminhada de acordo com nossos hábitos alimentares.

PREPARATIVOS PARA A TRILHA

No dia 03/01/2016 voamos para Hobart, capital da Tasmânia e no dia 04/01 pegamos um monomotor para Meleleuca onde iríamos iniciar a trilha...Meu Deus....a aventura ia começar.....A partir das 11 horas da amanhã fizemos nossa caminhada do primeiro dia de Meleleuca a Point Eric (13,4 km).

VÔO DE HOBART PARA MELELEUCA
 Foi uma caminhada tranquila com 80 m de subida e 80 de descida acumulados. Acampamos em Point Eric perto do fim da tarde. Depois, observamos que o local estava recebendo os ventos frios da Antártida que chegam ao sul da Tasmânia. Isto é interessante pois a partir das 18:00 h quando os ventos param de chegar a temperatura local volta a aumentar.


CAMINHO DE MELELEUCA A POINT ERIC

ACAMPAMENTO EM POINT ERIC

No segundo dia acordamos cedo e às 07:30 horas começamos a caminhar. O próximo trecho seria de Point Eric até Louisa River. Nessa caminhada atravessamos alguns riachos. O percurso era um pouco maior (17 km) e um pouco antes do horário do almoço tivemos que subir e descer uma elevação de 255 m (Red Point Hills). Chegamos no fim da tarde no acampamento de Louisa River onde pessoas mais corajosas se arriscavam a tormar banho nas águas geladas do rio. Tendo consciência de que no dia seguinte iríamos subir Ironbound Range fomos dormir bem cedo (antes das 19:30h).

POINT ERIC A LOUISA RIVER


O terceiro dia apresentava um grande desafio. Teríamos que subir Ironbound Range (905m em 5,6 km). Ana e Matt seguiram na frente. Eu fui devagar. A subida dessa elevação é uma experiência que transcende a simples atividade de caminhada. É um exercício de reflexão e disciplina. Devem-se estabelecer pequenas metas para se chegar ao ponto final e ter paciência pois a cada ponto conquistado existe um mais elevado que irá levar ao topo.

No caminho passaram por nós um grupo de 5 jovens da Tasmânia que haviam deixado o acampamento de Louisa River mais tarde. Como eles andavam juntos rapidamente a visão de seu movimento do alto deu-lhes o apelido de "Soldadinhos de Chumbo". Foram nossos vizinhos nômades nos acampamentos até o fim da trilha.

Chegamos ao topo do Ironbound Range umas 15:00h e a sensação de que havíamos cumprido algo desafiante foi carregada de emoção. Logo nos dirigimos ao acampamento de emergência pois decidimos que era melhor descansarmos mais na medida em que a descida também não seria fácil. O acampamento de emergência não contava com o toalete como os demais. Mesmo assim, acampamos e fomos dormir muito cedo.




No quarto dia iniciamos a descida do Ironbound Range (905 m em aproximadamente 5,9 km). O trecho tem dificuldade semelhante ou comparativamente mais difícil que o trecho da subida. Isso ocorre devido ao caminho ser praticamente muito íngreme (quase 60° de inclinação) e coberto de lama. Iniciamos a descida pouco depois das 06:00h com uma temperatura de aproximadamente 06°C e ventos cortantes vindos da Antártica.

DESCIDA DO IRONBOUND RANGE




Na saída fomos agraciados com a visão dos raios de sol trespassando as nuvens em direção e se refletindo no mar. O caminho estava muito escorregadio e cheio de pedras. Chegamos praticamente exaustos no ponto de nosso próximo camping, Little Deadmans Bay. Este lugar maravilhoso, cheio de pedras, com águas cristalinas no oceano e um ponto bem seguro para podermos descansar. Nesse local conhecemos nossos outros vizinhos nômades além dos Soldadinhos de Chumbo: Adam, um montanhista que estava fazendo a trilha com seus dois filhos adolescentes e Kathie uma ecóloga de Alice Springs que estava caminhando sozinha (atitude muuuiiiiito corajosa dela!!!).

ACAMPAMENTO EM LITTLE DEADMANS BAY

O quinto dia foi chamado de "Survivor Day" pelo conjunto de pequenos desafios que deviam ser enfrentados. Saímos umas 07:00h da manhã de Little Deadsman Bay e rumamos para Prior Boat Crossing (9,4 km com 150 m de subida e 150 m de descida acumulados). Parte do caminho é na praia que foi onde deparamos com um golfinho morto. Logo após tivemos que cruzar o New River Lagoon. Matt e Ana foram primeiro. Como as regras do parque informam que um barco deve ser deixado em cada margem da lagoa. O Matt voltou com os dois barcos e eu voltei com ele para a outra margem. Após essa parte, seguimos para um acampamento opcional em Osmeridion Beach (7,9 km). Após o desafio do barco descemos uma duna e continuamos a caminhar entre a duna e a lagoa. Após o almoço subimos outra duna com o auxílio de uma corda. Chegamos já ao final da tarde a Osmeridion Beach.

"SURVIVOR DAY" - LITTLE DEADMANS BAY A OSMERIDION BEACH


No sexto dia deixamos Osmeridion Beach em direção a Granite Beach (8,6 km). O caminho foi tranquilo e passamos por Surprise Bay com seu cenário estonteante. Após o almoço alcançamos Granite Beach. Antes tivemos que passar por um caminho de pedras e escalar um paredão de pedra (cliff) para chegarmos ao acampamento. Em Granite Beach foi traçada a estratégia do próximo dia no qual havia poucos pontos de coleta de água e não sabíamos até quanto tempo teríamos gás para cozinhar. Como eu andava mais devagar, Ana levaria meu saco de dormir.

OSMERIDION BEACH - GRANITE BEACH





O sétimo dia foi caracterizado por mais desafio. Iríamos caminhar de Granite Beach a South Cape Rivulet. O trecho com 9,1 km (715 km de subida e 715 km de descida acumulados) era simplesmente em sua primeira parte praticamente coberto de lama. No caminho atolei duas vezes o que foi uma sensação no mínimo....interessante...... Ana e Matt seguiram em frente. Após tanta lama o trecho passa a ser caracterizado por subidas e descidas em uma floresta cheia de imensas samambaias e eucaliptos. Ao final do caminho tivemos  duas belas vistas do oceano. Às 17:30 cheguei a South Cape Rivulet  que se revela em um maravilhoso cenário do riacho formando uma lagoa e desaguando em uma praia de eucaliptos.

GRANITE BEACH - SOUTH CAPE RIVULET



Nesse local conhecemos Cristhopher um mochileiro alemão (geógrafo que nem eu) que estava fazendo parte da South Coast Track no sentido leste-oeste e ficamos conversando sobre vários assuntos. No jantar recebemos a visita de uma Wallabee e seu filhote. Ela nos olhava atentamente (devia estar esperando que lhe déssemos comida). Entretanto não lhe demos nada porque é contra as regras do Southwest National Park. Felizes porque já estávamos quase no final da trilha fomos dormir.

ACAMPAMENTO SOUTH CAPE RIVULET

No oitavo dia saímos umas 7:30 h para fazer o último trecho da South Cape Rivulet até Cockle Creek. O último dia da trilha foi muito tranquilo (11,4 km com 200 m de subida e 200 m de descida acumulados). Passamos por praias maravilhosas  numa das quais temos a visão de Lion Rock. Por fim subimos outro paredão (cliff) de rocha escura da qual avistamos South Cape Bay. Nesta parte da trilha existem longos caminhos de madeira para evitar a zona de lama. Após esses caminhos atravessamos 04 riachos o que indicavam que já havíamos completado metade do trecho. Ao final, passamos por uma vegetação mais seca e por volta de 12:00 completamos a South Coast Track.

SOUTH CAPE RIVULET - COCKLE CREEK




O que podemos dizer da experiência é que ela foi única em nossas vidas. Observamos que fizemos a trilha de acordo com nossas condições física. Mesmo assim, a atividade teve momentos de preparação, planejamento e treinamento que foram muito importantes. A preocupação com o tipo de equipamento, vestimenta, calçados foi relevante. Matt providenciou um serviço de localização de GPS que permitiu que nossos familiares acessassem nossa rota e toda vez que chegávamos a um acampamento enviava uma mensagem informando onde e como estávamos.

A participação na South Coast Track foi muito significativa para nós. À medida que caminhávamos fazíamos grandes reflexões sobre que rumos iríamos tomar em nossas vidas. Quando chegamos na entrada do Parque Nacional estávamos esfuziantes com a sensação de dever cumprido. Chamamos um táxi que nos levou até Geeverston e de lá pegamos um ônibus de linha até Hobbarth. No mais, o que restou foi um gostinho de quero mais e outras grandes caminhadas virão pela frente.